UM SONHO PLANTADO – RELATO DE UMA TRAJETÓRIA

Nos despedimos de abril com a poesia do jornalista Ernesto Marques, que nos presenteou com um belo relato. Ele nos conta com muita poesia e emoção a trajetória da nossa fundadora, Cybele Amado, que criou e fez florescer o Instituto Chapada. Cybele deixou a presidência do ICEP assumindo a diretoria geral do Instituto Anísio Teixeira, onde certamente semeará novos sonhos.

Com gratidão, compartilhamos este relato poético que conta um pouco desta história:

 

imagem texto poético

Tudo parecia correr com a naturalidade das quaresmeiras.  Quando se inicia a maratona das jornadas pedagógicas Chapada afora, elas começam a desabrochar.

Ônibus e vans carregados de alegria e sonhos voltam a levantar poeira pelas estradas da Chapada, e o caminho da escola já está todo enfeitado com o lilás saltando aos olhos de quem passa por aquelas montanhas e vales.

É como se a natureza saudasse todo início do ano, religiosamente, essa maioria de mulheres sempre capazes de semear esperança no chão de qualquer sala de aula, até na escola mais precária, naquele torrão mais distante e inóspito.

Tudo parecia se repetir com a naturalidade das quaresmeiras, mas havia de fato, uma passagem a fazer, vinte e poucas quaresmas depois de uma outra passagem.

Sincronizado com o religar das comunidades escolares, o lilás das quaresmeiras remete àquela pedra da mesma cor e encantos, no anel de quem escolheu o magistério quase como numa profissão fé.

Vinte e poucas quaresmas atrás, também era só mais uma quaresma se repetindo como sempre. A chegada de uma jovem professora da capital para trabalhar numa escola rural era sim, uma novidade naquele lugar até então ermo e quase desconhecido.

O impacto da novidade se dissipava entre as flores da mesma cor da pedra daquele anel no dedo de uma professora aparentando mais ou menos a mesma idade dos seus alunos.

Vinte e poucas quaresmas atrás parecia ser só uma quaresma se repetindo. E ninguém poderia supor ser aquela novidade na Escola de Caeté Açú, o prenúncio de uma passagem capaz de mudar um território. E um sonho foi plantado em semente naquele chão pintado em flores da cor da quaresma, do magistério e da peleja das mulheres por igualdade.

Desde então a máquina de fazer democracia, movida sonhos, ressignificou a cor que marca o território predominante verde.

Talvez a tal meta-reflexividade conceituada, inventada ou descoberta por aquela jovem professora recém-formada explique. O fato é que em vinte e poucas quaresmas o lilas se ressignificou na Chapada.

É a cor que a natureza pinta o lugar para festejar mais um recomeço e nele, os muitos reencontros que só acontecem numa escola. As aulas voltarão a ser rotina antes que as quaresmeiras se escondam novamente no verde em volta. Pelo menos até a próxima florada, no próximo recomeço, nas próximas jornadas pedagógicas e reinício de aulas.

Tudo seguirá como antes e, ao mesmo tempo, a partir de afora será algo diferente do que tem sido desde que a obstinação de uma jovem professora sonhadora encontrou raízes no Capão.

No Domingo de Páscoa passado, a Quaresma deste ano da Graça de 2019 se encerrou alvissareira. A TV Educativa começou a divulgar a edição do programa de entrevistas Perfil & Opinião com aquela jovem professora recém-formada de vinte e poucas anos atrás.

Querendo saber bem mais que os seus cinquenta e poucos anos, a educadora Cybele Amado, fundadora e ex-presidente da organização que dirigiu por mais de duas décadas, agora dirige o Instituto Anísio Teixeira, da Secretaria Estadual de Educação. Faz agora o caminho inverso daquele escolhido vinte e poucas quaresmas atrás.

Por mais de duas décadas um conjunto de educadores, majoritariamente mulheres tem dedicado a melhor de suas energias para que cada vez mais crianças sejam capazes de ler o mundo para escreverem as próprias vidas com a autonomia sonhada por um outro semeador de sonhos.

Símbolo e concretude, a figura pública da educadora Cybele Amado e a imagem  institucional do ICEP se confundem, irremediavelmente. Um caso raro de transmissão natural da persona construída em anos de muito trabalho para a instituição seguir vivendo a própria vida como organização comprometida com a educação pública. Como um filho gestado, dolorosamente parido e criado para ganhar o mundo.

O legado construído coletivamente segue produzindo mais conhecimento na instituição que decidiu compartilhar com o Estado da Bahia não só o conhecimento produzido, mas a sua fundadora e símbolo de uma saga vitoriosa pela educação.

Foi a belezura dessa cria que levou Cybele ao comando de uma instituição de governo com a missão e o simbolismo do caetiteense Anísio Teixeira. E junto com ela, muitas biografias condensadas numa história que uma jornalista resumiu como uma verdadeira revolução silenciosa.

Uma história que continua sob a batuta da educadora Bete Monteiro, que compartilhou com Cybele a liderança da experiência do ICEP.

O vídeo divulgando a entrevista no Domingo de Páscoa tinha um gosto de chocolate de coelhos e ovos simbolizando a fertilidade. O conhecimento produzido e sistematizado pela experiência liderada por uma professora recém-formada, reconhecido mundo afora, é agora incorporado pelo Estado.

A utopia nascida vinte e poucas quaresmas atrás vai se realizando como mais um sonho que se sonha junto. Uma leitura do mundo começa agora a escrever uma política pública capaz de mudar vidas e redefinir comunidades.

Texto: Ernesto Marques (Abril/2019)

 

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