Mia Couto destaca o papel da literatura na educação

Escritor moçambicano participou de uma roda de bate-papo com educadores do ICEP, que foi parte da programação do Fronteiras Braskem do Pensamento 2017

O escritor moçambicano Mia Couto acredita que é papel da escola encorajar os alunos a escrever e a colocar poesia no que escrevem. Um dos escritores mais traduzidos no mundo na atualidade, ele participou de um bate-papo com educadores do Instituto Chapada de Educação e Pesquisa – ICEP, na manhã dessa segunda-feira, no Sheraton da Bahia, em Salvador.

Ele ressaltou que a educação deve partir da bagagem que a criança traz, deixando o estudante livre para criar, em vez de inventar o medo de errar. “Do ponto de vista da escrita, o aluno deve ser encorajado, criando uma relação bonita com o erro. Às vezes esse erro é a única resposta que existe”. De acordo com o autor, a literatura e a educação são determinantes para a formação dos valores de uma sociedade.

O escritor abriu a programação do Fronteiras Braskem do Pensamento 2017 e o encontro com educadores foi um dos destaques da programação. “Nunca pensei que um dia estaria numa sala como esta, na Bahia, num diálogo franco e direto com professores”, afirmou Mia Couto, que agradeceu pela oportunidade de discutir aspectos da obra dele com educadores da capital baiana e do interior. Para o escritor, “o mundo é uma escola permanente. Fui aluno por muitos anos, professor também”. A diretora presidente do ICEP, Cybele Amado, afirmou que a obra de Mia Couto “é muito próxima de nós, educadores”.

Mia Couto nasceu na cidade da Beira, em Moçambique. É filho de uma família de emigrantes portugueses. Publicou os primeiros poemas no jornal Notícias da Beira, com 14 anos. A partir de 1974, enveredou pelo jornalismo, tornando-se, com a independência, repórter e diretor da Agência de Informação de Moçambique (AIM) – de 1976 a 1976; da revista semanal Tempo – de 1979 a 1981 e do jornal Notícias – de 1981 a 1985. Em 1985 deixou a carreira jornalística. Reingressou na Universidade de Eduardo Mondlane, para se formar em biologia, especializando-se na área de ecologia, e foi professor de Ecologia em diversas faculdades dessa universidade.

“Quando eu dava aulas para estudantes de Arquitetura, tentava fazer meus
alunos perceberem qual a lógica de construção de uma árvore ou de um ninho”. Para o escritor, é preciso resgatar o respeito e a reverência em relação à natureza. E esses diálogos em sala de aula tinham esse objetivo. “Temos de aprender a respeitar todas as coisas”, diz.

Cybele Amado citou o sociólogo e crítico literário Antonio Candido – para quem a literatura deveria ser um direito básico do ser humano -, ao dirigir a palavra para Mia Couto, afirmando que a literatura se tornou artigo de luxo e que a sociedade separa letrados e iletrados. “Minha visão é que a literatura é uma coisa simples, nós é que traçamos um roteiro para separá-la da oralidade”, pontuou Mia Couto. “Ela não é esse edifício solene, se for, não quero entrar nele”, brincou. O escritor lembrou que teve os primeiros contatos com a poesia, ainda criança, por meio dos discos de vinil do pai dele, que era jornalista e poeta.

A diretora pedagógica do ICEP, Elisabete Monteiro, ressaltou a importância da literatura em sala de aula. “Ela nos ajuda a fazer conexão conosco e nos conecta com outras pessoas”. A educadora perguntou ao escritor: “Como ensinar esse jeito seu de escrever, tão bonito, para nossos alunos?”. Ele respondeu que o processo passa pela desconstrução do medo de errar, pelo deixar fluir a escrita.

A coordenadora pedagógica do ICEP, Raidalva Silva, contou que foi tocada pela literatura na escola. “Na minha casa não tinha livros. Éramos muitos numa mesma casa, e às vezes o único espaço que eu tinha para a leitura era o banheiro”, lembra, destacando como esse contato foi importante.

O momento de uma roda de leitura, realizada por educadores para alunos em situação de rua, com idade entre 15 e 18 anos, em 1999, foi lembrado pela coordenadora pedagógica Ana Falcão. “Para muitos foi o primeiro contato, o transporte para o mundo da fantasia. Alguns ficaram boquiabertos, outros chupando o dedo”, lembra. A educadora não escondeu a emoção, por trazer as lembranças do passado. Para Mia Couto, a literatura tem o poder de provocar esse encantamento, tocando alunos e professores.

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